Sabe quando você acorda do nada achando que seu relacionamento está perfeito de mais, tão perfeito que chega a parecer estranho? Vocês nunca tiveram uma briga de verdade, nunca discordaram, nunca discutiram, nunca tiveram nenhum momento tenso, nenhum atrito desconfortável… Nada.
Pois é, acordei assim um dia e decidi que não era possível, nenhum amor é tão perfeito assim. Deve haver alguma coisa errada, algum problema escondido em algum lugar. Tinha que ter alguma coisa!
Sim, uma vez que a loucura se instaurou, começa todo o processo quase psicótico. Primeiro procuro em toda e qualquer possibilidade algum indício de que algo fora do lugar – na relação, eu digo. Sempre que dava, mexia, ou melhor revirava as coisas dele. Aquela coisa bem de namorado obsessivo em saber o passado do outro, sabe? Bem cena de filme, ou então daquele episódio do Sex and the City onde a Carrie é pega fumando, de pé na cama tetando abrir uma caixinha do cara que está ficando.
Enfim, foram álbuns de fotos, arquivo de ligações, mensagens no celular, cds de back-up – incrível como hoje em dia, com toda essa onde tecnológica ficou muito mais fácil conhecer sobre a vida de uma pessoa, né? – e mesmo assim, nada parecia estar fora do lugar.
Até que um dia ele saiu cedo para trabalhar num sábado e quando acordei me deparei com o que? Seu computador, aberto, todo desprotegido dos meus olhos e dedos neuróticos.Quase que um presente divino – ou seria diabólico – para minha cabeça perturbada.
Me senti o verdadeiro Norton (o anti-virus no caso), varrendo todos os arquivos, e-mails, fotos… Tudo. E nada, nada de estranho ou errado. Muito pelo contrario, até achei uma pasta de arquivos com meu nome, onde ele guardava fotos, textos, e-mails, conversas de msn… Fofo, né?
Pois é, também achei, mas não era isso que eu queria. Precisava achar alguma falha, alguma bizarrice, alguma coisa que não fosse tão perfeito. Até que me veio uma luz: Conversas de msn! Isso! Se tinha alguma coisa que não tinha virado do avesso, estudado cada frase, cada palavra digitada, eram seus históricos de conversas no msn. Eis que quando vou abrir a pasta onde esses arquivos ficam armazenados, me deparo não só com a conta que eu já conhecia, mas também com uma outra que desconhecia.
Só podia ser um msn de putaria – um pequeno adendo, é muito comum entre os gays terem um msn para amigos e um só para caçar ou fazer sexo virtual. Comcei a tremer dos pés à cabeça de pura ansiedade e medo do que eu podia descobrir. Tomei, né? Afinal, quem procura acha, até o que no fundo não quer achar. Mas vamos lá.
Abri logo a pasta e me deparei com conversas nada convencionais para uma pessoa comprometida, com contexto bem erótico. Ou seja, o bom e velho msn de putaria.
Desesperei. Finalmente achei algo de errado. Mas seria algo de errado comigo, então? Será que faltava alguma coisa em mim? Será que não o satisfaço completamente? Será que era apenas uma forma de estímulo visual, ou outra coisa? Seria desejo de sexo real com outra pessoa? Ai meu Deus, fudeu!
Nunca recriminei, como não recrimino nenhuma forma de pornografia como estímulo visual para o sexo, seja sozinho (uma punhetinha) ou até mesmo acompanhado (uma punhetina com webcam). Acontece que com toda a interatividade da internet os limites para tais estímulos ficaram incertos, pelo menos para mim, naquela hora. É quem em fotos ou vídeos pornôs há um grau tão grande de artificialidade, de encenação, que talvez já esteja ficando saturado, fazendo com que as pessoas comecem a buscar estímulos, digamos, mais reais. Mesmo que ainda no campo virtual, intermediados por uma tela, numa conversa por msn com direito à webcam e fotos, saber que o que se vê pela tela é real, que do outro lado tem uma pessoa real, faz aumentar todo o potencial de estímulo sexual, de um modo que a pornografia convencional nunca alcançaria. Estou errado?
Mas voltando ao caso, meu caso específico. Seria isso uma de traição? Ah, era meu namorado conversando, se mostrando e vendo outra pessoa real através do computador. Eram os dois dizendo o que gostariam de fazer sexualmente um com o outro. Seria mais ou menos como um filme pornô interativo?
Por mais que se ame uma pessoa, acredito que desejos não se controlam, certo? Você não pode decidir não sentir desejo por algo ou alguém. Você pode, sim, decidir ser quer concretizá-lo ou não. E ao meu ver, a única diferença entre o sexo virtual e quando se vê na rua alguém que te desperta desejo sexual, é que naquele a outra pessoa – a do outro lado da webcam – pode também ter desejos por você e expressar isso.
Então não era traição? Acredito que não – ou quis acreditar que não? Sei lá, acho que não, porque eu mesmo já passei por isso e outro relacionamento e não sei não posso passar de novo. É algo bem complexo mesmo. Mas acredito que seja só uma forma de suprir desejos sexuais, que uma vez comprometidos não podemos, ou melhor, não queremos concretizar com uma série de outros fatores que não vem ao caso agora.
Tá, então não considerei aquilo como traição. O que não significa que deixa de ficar preocupado ou incomodado. Afinal, sou uma pessoa super ciumenta e possessiva. Mas o curioso, é que apesar da raiva, da tristeza e aborrecimento, não cheguei a duvidar em momento algum do que ele sentia por mim. Sabe, não cheguei a questionar se todos aqueles “eu te amo”, eram mentira ou a mais sinceras da verdade. Não sei, é difícil falar sobre isso, ou explicar. Talvez só quem já passou por relacionamentos tão intensos e recíprocos tenha uma noção do que quero falar.
Óbvio que rolou aquele período de desconfiança forte, principalmente da minha parte – afinal o ciúmes gritante da relação vem mais de mim, fazer o que…Mas no fundo acho que tudo isso foi até que bom, sabe? Porque só quando se passa por situações como essas é que podemos ver o quanto cada um na relação está disposto a se esforçar, se entregar e ceder para poder levar o relacionamento a diante.
E na verdade, o que me incomodava naquela perfeição, era justamente a falta desses impasses, dessas imperfeições que mostram se ambos estão dispostos a dar um próximo passo na relação. A não deixar ela parada, estagnada naquela suposta calmaria perfeita. Enfim, acho que eu necessito de imperfeições…